5# COMPORTAMENTO 29.1.14

     5#1 NADA MUDOU
     5#2 SNDROME DE GRETA GARBO
     5#3 O DRAMA DE WAKIL

5#1 NADA MUDOU 
Um ano aps a tragdia que matou 242 pessoas na boate Kiss e escancarou as condies precrias das casas noturnas brasileiras, ISTO visita baladas do eixo Rio-So Paulo e constata que elas continuam perigosamente inseguras
Mariana Brugger, Raul Montenegro, Simone Felcio e Wilson Aquino

Depois que passa, a gente se d conta do absurdo que  um jovem entrar num buraco daqueles e sair morto, diz Elaine Gonalves, que h um ano perdeu dois filhos no incndio da boate Kiss, em Santa Maria (RS). No dia 27 de janeiro de 2013, depois de um dia de calor intenso no interior gacho, 242 pessoas morreram na tragdia que escancarou ao Pas as condies precrias das casas noturnas brasileiras. Na poca, muitas promessas foram feitas  com estabelecimentos e autoridades de todas as esferas se comprometendo a endurecer medidas de combate ao fogo no territrio nacional. Um ano depois, porm, quase nada saiu do papel e muitos dos buracos continuam funcionando sem condies mnimas de proteo. Em um deles, visitado por ISTO, uma pessoa pode se deparar com uma parede de tijolos ao abrir a porta de emergncia que deveria lev-la ao lado de fora.

HORROR - 27 de janeiro de 2013: pnico em Santa Maria na madrugada da tragdia. Um ano depois, ningum foi punido

A imagem que beira o surreal pode ser vista numa casa de shows localizada entre os bairros de Pinheiros e Vila Madalena, dois dos mais badalados de So Paulo. A reportagem foi a boates da capital paulista e do Rio de Janeiro na semana passada para verificar as condies de segurana das baladas, o que j havia feito no ano passado, e constatou que pouca coisa mudou.

 Naquela madrugada de domingo em Santa Maria, a existncia de uma nica sada foi uma das causas apontadas por especialistas para o nmero de mortes. A maioria das casas noturnas visitadas possui problemas nas sadas de emergncia. Na  do Borogod, que emparedou um dos acessos  rua, instrumentos musicais bloqueavam outra porta da casa. De acordo com o proprietrio Leonardo Gola, o prdio possui outros dois acessos que so suficientes. No pub Kia Ora, na zona oeste paulistana, uma delas leva  cozinha, que, por sua vez, termina numa passagem trancada. No Beco 203, na rua Augusta, centro de So Paulo, uma das sadas, ao lado do fumdromo, estava fechada no dia da visita. Os frequentadores tambm dariam com a cara na porta de emergncia do Maavah, bar da zona leste paulistana que toca msica sertaneja e pagode. ISTO no conseguiu contato com Beco 203 e Maavah. O Kia Ora disse que um boto ao lado da porta que d para a rua, quando pressionado, libera a passagem. No Rio, o caso mais grave foi o da 021 Club, na Barra, cuja entrada  cercada por grades de metal fixas, empecilho invencvel para sair do lugar em caso de incndio. Apesar das trs sadas de emergncia, no h sinalizao, aponta Vinicius Cavalcante, diretor da Associao Brasileira de Profissionais de Segurana no Rio, que acompanhou a reportagem. Procurada, a casa no se pronunciou. No centro carioca, o Pampa Grill tinha mesas e uma porta de metal obstruindo sadas.

Edgar Vargas, gerente do local, reconheceu as falhas. A Casa da Matriz, em Botafogo, chegou a ser fechada por dois dias no ano passado devido a problema de alvar, mas se regularizou. Na quarta-feira 22, entretanto, acontecia uma festa que tinha, na decorao, uma piscina de plstico na sada. Confesso que no sabia, mas vamos alertar as produes, afirma Lo Feij, scio. No inferno da Kiss, sobreviventes relataram que muita gente foi parar no banheiro pensando se tratar de uma rota de fuga. No Studio RJ, em Ipanema, h a mesma armadilha: a porta do fumdromo, que leva a um cmodo fechado, parece uma sada de incndio. A boate no se pronunciou.

 Outro problema grave  a lotao. Na boate Kiss, testemunhas contaram que havia pelo menos mil pessoas no dia do incndio, apesar de a casa oficialmente comportar 691. Em So Paulo, num cartaz da balada D.Edge, na zona oeste, est escrito que l cabem 360 pessoas. Funcionrios ouvidos pela ISTO, no entanto, afirmam que a boate recebe at dois mil frequentadores. Na segunda-feira 20, a reportagem contou entre 200 e 300 pessoas s no deque superior. Em nota, a D.Edge afirmou que possui autorizao para abrigar 609 frequentadores. Na Fosfobox, em Copacabana, a placa afixada do lado de fora consta a capacidade de 100 pessoas, mas h muito mais gente do lado de dentro. Cabbet Arajo, dono, explica: Nossa licena permite 100 pessoas por pavimento. Os materiais tambm so item fundamental na segurana. Na tragdia do ano passado, foi a espuma inflamvel do teto que pegou fogo depois que o vocalista da banda Gurizada Fandangueira acendeu um sinalizador durante o show. Na The History, localizada na zona oeste paulistana, a reportagem flagrou uma garrafa com vela que soltava fascas, o que no  recomendado pelos bombeiros  a administrao afirmou que a chama no oferece riscos. Na casa noturna Alberta #3, no centro de So Paulo, o teto da pista de dana tambm  de espuma. A fiao e uma tomada eltrica ficam prximas ao forro, mas a assessoria informa que o material  antichamas. J na carioca Rio Music, fios expostos e assentos com espuma podem ajudar na propagao de incndios. Ainda existem elementos de papel na decorao, afirma Jaques Sherique, engenheiro especializado em segurana e vice-presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio (CREA-RJ), que percorreu endereos noturnos com a ISTO. Ulisses Xavier, scio, informou que a casa j passou pelo processo de adequao e est em dia com os bombeiros. Um grande problema  que esses produtos no so avaliados. Na rea da sade voc no v remdios sendo vendidos sem teste afirma Jos Carlos Tomina, superintendente do Comit Brasileiro de Segurana Contra Incndio da ABNT.

Muitas das casas do Pas funcionam sem alvar. Em So Paulo, segundo a prefeitura, foram emitidas ou revalidadas 178 permisses para locais com capacidade superior a 500 pessoas em 2013. Mais 224 estabelecimentos esto abertos aguardando regularizao. No Rio, 2.600 casas de diverso foram vistoriadas pelo municpio. Desses, 825 foram autuados por funcionarem sem alvar ou em desacordo com a documentao. Belo Horizonte (MG) tem apenas 34 locais de shows completamente regulares, dos 264 vistoriados em 2013. Entre os 201 estabelecimentos visitados em Porto Alegre (RS), 98 possuam licena e 71 esto fechados por falta de documentao. J em Salvador (BA), a prefeitura fiscalizou 64 casas noturnas no ano passado  20 foram interditadas, mas 12 j esto funcionando. Estudiosos afirmam que h pouca gente para fazer a fiscalizao. Somente 14% dos municpios brasileiros tm Corpos de Bombeiros, o principal parceiro das autoridades nesse trabalho.

Desde o caso Kiss, a legislao referente ao tema avanou um pouco. O Rio Grande do Sul aprovou regras mais duras no ano passado, como uma maior rigidez na obteno de alvars de preveno contra incndio, por exemplo, mas elas vo demorar meses para sair do papel. Em Santa Catarina, bombeiros lutam pelo poder de interditar imediatamente locais que ofeream riscos  o que j acontece no Rio. Tomina, da ABNT, diz que  muito complicado no haver uma legislao nacional sobre o tema. Os Estados tm sua legislao prpria. Isso  muito ruim porque no h um padro. Depois do desastre de Santa Maria, a Cmara dos Deputados comeou a discutir um projeto de lei para sanar essa questo. A proposta ficou pronta em julho, mas aguarda votao no plenrio. O deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que coordenou uma comisso sobre o assunto na Casa, afirma que a demora se deu por causa da anlise de assuntos com urgncia constitucional  que tm prioridade  no ano passado. Para ele, porm,  preciso aproveitar a retomada do interesse para votar a matria. O Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), presidente da Cmara, fez a promessa de colocar em votao na primeira semana de fevereiro. 

Uma das promessas do projeto federal  responsabilizar agentes pblicos que no cumprirem suas obrigaes de fiscalizao. Um ano depois da Kiss, esse  um dos pontos mais incmodos para os familiares das vtimas. Ficou um sentimento de impunidade, afirma Helena Rosa da Cruz, me de duas vtimas do incndio. Processos de homicdo correm contra dois integrantes da banda e dois proprietrios da boate, que chegaram a ser presos, mas foram soltos meses depois. Outros dois inquritos, sobre poluio sonora e fraude no licenciamento, devem ser concludos em fevereiro. Para que outras famlias do Pas no sofram o mesmo que as de Santa Maria, Tomina, da ABNT, diz que deve haver boas regras, produtos de qualidade e fiscalizao. Temos 1.200 vtimas fatais por causa de incndios anualmente no Brasil. So cinco boates Kiss todo ano.  preciso dar um basta.


5#2 SNDROME DE GRETA GARBO
Como vivem Ana Paula Arsio e Ldia Brondi, as estrelas que abandonaram a carreira artstica no auge da fama e optaram por uma rotina de recluso
Rodrigo Cardoso e Camila Brandalise

Sei que  inevitvel falarem de mim, tanto por causa da minha carreira na televiso quanto por ser casada com um ator, mas essa exposio compromete o meu trabalho como psicloga.  ruim para mim, um assunto que ficou para trs. Foi em frente ao seu consultrio, na zona sul de So Paulo, que a ex-atriz Ldia Brondi reforou a sua posio a favor do anonimato para a ISTO. Aos 53 anos, casada h 23 com o ator Cssio Gabus Mendes, Ldia preserva o mesmo sorriso de trs dcadas atrs, quando figurava no seleto grupo das maiores e mais belas estrelas da televiso brasileira. As suas ligaes com o passado param por a. Em 1990, aos 30 anos, ela colocou um ponto final na carreira marcada por sucessos como Dancin Days (1978), Roque Santeiro (1985) e Vale Tudo (1988), s para citar trs novelas da Rede Globo. Saiu de cena no auge, quando seu rosto estampava a capa de inmeras revistas  masculinas, inclusive , para o espanto da classe artstica e do pblico que a enxergava como uma espcie de nova namoradinha do Brasil. Sua ltima novela foi Meu Bem, Meu Mal (1990). As pessoas ainda me procuram para falar sobre o meu trabalho na televiso e tm curiosidade sobre a minha vida, mas j faz 20 anos. Isso me surpreende, diz Ldia. A ex-atriz e, hoje, psicloga viveu o que no meio artstico passou a ser conhecido como sndrome de Greta Garbo, em referncia  artista sueca que trocou o status de estrela de Hollywood dos anos 1920 e 1930 para viver reclusa em sua terra natal (leia quadro). Ldia, porm, no  a nica brasileira nesse panteo das deusas reclusas. Em 2010, aos 35 anos, a atriz Ana Paula Arsio surpreendeu ao pedir demisso da Globo, aps conquistar, em 11 anos de casa, prmios, fama e idolatria por meio de trabalhos como Hilda Furaco (1998) e Terra Nostra (1999). Desde ento, a sua ocupao passou a ser os afazeres do Haras So Carlos, em Santa Rita do Passa Quatro, cidade de 26 mil habitantes no interior de So Paulo. Trilhar uma carreira de sucesso no mundo dos artistas  tido por muitos como uma espcie de bilhete de loteria premiado, a concretizao de um sonho. O que explicaria, ento, o movimento contrrio das celebridades que trocam o pedestal ocupado por uma minoria por uma vida comum  maioria?

RECLUSO - Ana Paula Arsio cavalga em sua fazenda, em Santa Rita do Passa Quatro (SP), e, em 1997, na novela "Ossos do Baro"

H uma fantasia que habita a cabea dos famosos. Muitos, em algum momento, pensam: Uma hora eu desapareo, diz o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg, autor do livro Sentido e Existncia, que trata da relao do ser humano com a sua imagem. Psiquiatra e psicanalista carioca, Luiz Alberto Py argumenta que no  to raro pessoas nessas condies no desejarem mais ser quem eram. Ainda mais quem comeou em um caminho muito cedo e no teve uma escolha prpria amadurecida sobre o que fazer na vida, afirma. Ldia Brondi e Ana Paula Arsio iniciaram precocemente no meio artstico, aos 14 e 12 anos, respectivamente. Tiveram de encarar presses e responsabilidades para as quais muitos no esto preparados nem deveriam ser expostos nessa idade. Mais tarde, com maior discernimento e donas do prprio nariz, tornaram-se sensveis s agruras da exposio e decidiram sair da vitrine, como se isso fosse possvel. H vrios apelos para que elas voltem. Em novembro, por exemplo, o diretor de ncleo Wolf Maya rasgou elogios a Ana Paula e afirmou: Fao aqui um apelo pblico, ns no podemos perder Ana Paula Arsio. E fs de Ldia Brondi criaram blogs para cultuar momentos marcantes da carreira da estrela.

A opo de sumir do mapa acaba se revelando um jeito eficiente de continuar aparecendo.  o que ocorre com Ana Paula, 38 anos. Em Santa Rita do Passa Quatro, poucos so os habitantes que desfrutam de sua confiana. Muitos, porm, tm uma histria sobre ela para contar. As lendas em torno do seu estilo de vida proliferam como resultado da sua opo por no circular e no interagir. Assim, ela se tornou um mito cercado por um pequeno squito. No posso falar sobre a nossa relao, fui proibida por ela, diz Claudete Aparecida Arsio, me da ex-atriz. Ana Paula, dizem comerciantes locais, j foi vista em bares da cidade  em um deles, cujo dono  um de seus funcionrios no haras, teria at arriscado algumas tacadas em uma mesa de bilhar  e bebendo cerveja acompanhada de amigos em lojas de convenincia de postos de gasolina. Conta-se, inclusive, que ela teria a mania de dar cerveja a seus cavalos. Funcionrios da prefeitura tambm afirmam j t-la visto entrando no banco, circulando como uma transeunte, de bota, cala de administradora rural suja de terra, cabelo preso e culos escuros para esconder o farol que a tira do anonimato no ato  os hipnotizantes olhos azuis. Ela veio uma vez aqui, num sbado  tarde. Encostou sua caminhonete preta e desceu para beber trs cervejas e comer panceta frita acompanhada de um homem, diz Roberto Correia, proprietrio do Boteco do Roberto. A ex-atriz escolheu viver com o marido, o bioarquiteto e cavaleiro Henrique Pinheiro, 35 anos, em uma zona rural afastada do centro da cidade. Para chegar  porteira da sua propriedade de 40 alqueires (o equivalente a 48 campos de futebol),  preciso encarar cinco quilmetros de uma estreita estrada de terra. ISTO tentou ali, sem sucesso, um contato com a protagonista de Hilda Furaco.

EXPEDIENTE - Fachada do prdio onde fica o consultrio de Ldia Brondi, na zona sul de So Paulo: a ex-atriz passou na faculdade de psicologia, em 2002, dez anos depois de se afastar da tev

O fato de se tornar uma figura pblica, conhecida por muita gente e assediada continuamente deixa o indivduo sufocado, afirma o psicanalista Goldberg. Alm disso, ele  submetido a juzos o tempo todo e surge o medo da desaprovao. A vulnerabilidade do olhar alheio implica sensao de crtica. E tem a questo da fantasia, da destruio da identidade por causa do personagem. Vrios fatores podem levar a uma fragilidade psicolgica, afirma. Ana Paula tem averso no s  imprensa, mas ao pblico. Convidada recentemente para assistir a uma prova de tambor, que consiste em contornar trs tambores montados em um cavalo no menor tempo possvel, teria assim reagido, segundo uma pessoa prxima: Ah, mas o pessoal vai ficar em cima, me enchendo o saco.

Quando Ldia Brondi decidiu abandonar a vida artstica, rumores davam conta de que uma sndrome do pnico teria sido o motivo, fato negado pela atriz. A maioria dos famosos, em um determinado momento, tem pelo menos alguns sintomas de sndrome do pnico, mas claro que no divulgam publicamente, diz Goldberg. Pai de Ldia, o pastor Jonas Rezende conta que tentou dissuadir a filha de desistir de seu contrato com a Globo, argumentando a importncia do trabalho dela. Eu disse que tev  um veculo de entretenimento e diverte milhes de pessoas. Mas ela tinha tomado uma deciso que vinha sendo amadurecida havia algum tempo. Era uma fase de sua vida que se esgotou, afirma Rezende.

Dez anos depois de deixar a tev, aproximadamente, Ldia foi aprovada na faculdade de psicologia da Pontifcia Universidade Catlica (PUC), de So Paulo. Graduada, hoje ela intercala atendimentos em seu consultrio e em um ambulatrio da Universidade Federal de So Paulo (Unifesp). Seu nome consta da equipe do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violncia (Prove). A psicloga vai a p de um local a outro sem receio de ser reconhecida, o que, segundo ela, acontece com mais frequncia do que ela imaginaria. Dedicada, chega a cancelar viagens para no deixar de atender seus pacientes. Comea cedo no consultrio e, dependendo da agenda, encerra o expediente por volta das 21 horas. A ex-atriz, me de Isadora, 28 anos, da unio de cinco anos com o diretor da Globo Ricardo Waddington, no cogita retornar  antiga profisso.

Hoje em dia, Ana Paula Arsio faz as vezes de administradora rural em seu haras, enquanto o marido se encarrega de fazer supermercado, ir ao correio e cuidar das tarefas bancrias. Outro dia, a ex-atriz se embrenhou no meio do lago para instalar um vaso no local e, em 2012, foi at a delegacia de Santa Rita do Passa Quatro para registrar um boletim de ocorrncia contra o proprietrio do stio vizinho, que, curiosamente,  pai de um ex-namorado. Ela o acusa de ser o responsvel por um incndio criminoso que consumiu uma quadra da sua plantao de cana-de-acar. Ela e o ex-sogro vivem s turras, uma histria mal aparada desde que ela terminou o namoro com o filho dele, diz um parente do ex-sogro de Ana Paula.

Alm de cana-de-acar, Ana Paula e o marido produzem feno, que  vendido para stios e fazendas da regio por R$ 7 o fardo. Os dois possuem um campo de produo de cerca de cinco alqueires no haras. Recentemente, tambm, adquiriram um trailer para transportar os cavalos  tm cerca de 30 , a paixo de Ana Paula. Quatorze anos atrs, a atriz j dava sinais  mesmo desfrutando das benesses de protagonista da novela do horrio nobre da Globo (Terra Nostra)  do papel que gostaria de desempenhar na vida real. L atrs, em uma entrevista, contou que seu av, bem-sucedido morando em uma fazenda, decidira sair do fim de mundo em que se encontrava para viver na cidade grande. Dera ouvido ao que diziam seus amigos sobre as boas oportunidades oferecidas na metrpole  mas no foi bem-sucedido. A concluso de Ana Paula,  poca com 24 anos:  por isso que at hoje eu sinto necessidade de estar no campo, de trabalhar com a terra. A duras penas, sob crticas de diretores que contavam com a sua presena em gravaes de novela e eventos de lanamento, ela jogou tudo para o alto, desceu do pedestal e calou as botas surradas de um anonimato que ainda no se concretizou.

MISTERIOSA - Acima, Greta Garbo caracterizada como Marguerite para o filme "Dama das Camlias", de 1936; abaixo, a atriz caminha por Paris, em 1958


5#3 O DRAMA DE WAKIL
O mdico afego, um dos 4,5 mil refugiados do Brasil, enfrentou a guerra em seu pas, fugiu da perseguio poltica no Ir e foi obrigado a trocar o avental branco pelo trabalho nas oficinas de costura de So Paulo
Fabola Perez

Envolto em tecidos e recortes de papel, no segundo andar de um antigo prdio da avenida Rangel Pestana, no centro comercial de So Paulo, o afego Wakilahmad Tajik, 36 anos, trabalha em uma oficina de costura dez horas por dia. Com a fita mtrica pendurada no ombro, Wakil, como  conhecido no Brasil, desenha em um papel pardo o esboo da pea que mais tarde vestir os manequins das lojas do Brs. Diante da mquina de costura, porm, os pensamentos se fixam em outro objetivo: como voltar a exercer a profisso de mdico. Wakil  um dos mais de 4,5 mil estrangeiros refugiados no Pas. O Brasil tem aumentado a presena internacional e isso impacta no imaginrio dos povos, afirma Andrs Ramirez, representante do Alto Comissariado das Naes Unidas para Refugiados no Brasil (Acnur). O crescimento econmico tambm levou pessoas do mundo inteiro a solicitar refgio no Pas, diz.

CONTRASTE  Wakilahmad Tajik (abaixo) no Ir, em sua clnica mdica. E hoje, no centro de So Paulo (acima) confecciona peas de jeans

Todos os dias, s 6 da manh, a esposa iraniana, Mahboubeh, desperta Wakil para trabalhar. O filho Yezdan, 7 anos, aproveita no colcho os ltimos instantes antes de ir para a escola. Embora estejam h um ano no Brasil, o caf preto ainda no conquistou um lugar  mesa.  o ch iraniano que o casal degusta entre os intervalos da conversa sobre os compromissos do dia. As palavras em portugus ainda saem com dificuldade e o idioma persa prevalece. Wakil nunca havia pensado em viver no Brasil, mas a fala firme d lugar a um leve sorriso quando se lembra do dia em que chegou. Troquei tudo que tinha pela liberdade e pela paz que encontrei aqui. A vida de Wakil deu muitas voltas e no  toa as malas ainda repousam  vista em uma prateleira na sala, no bairro paulistano que, ironicamente, tambm leva o nome de Liberdade.

Wakilahmad nasceu na cidade de Herat, no oeste do pas, filho de um abastado empresrio do setor txtil, mas, com 7 anos, se mudou para o Ir. Era a poca da invaso sovitica e os efeitos da guerra estavam por toda parte. Hoje, sabe-se que o conflito armado, que teve incio em 1979, vitimou cerca de um milho de afegos. Lembro de estar brincando com cinco amigos no quintal de casa, fiz um intervalo para buscar um pedao de po, e quando voltei encontrei todos mortos. A guerra bateu  porta da famlia Tajik e matou 30 familiares de Fieuzeh Jamshidi, me de Wakil. Em 1983, veio a deciso de abandonar o pas.

Era a primeira vez que Wakil faria as malas para recomear a vida em outro pas. A famlia vivia como refugiada em Teer, capital do Ir, mas Wakil estudava em Yazd. E l o jovem Wakil enfrentou meses de discriminao por ser o nico aluno afego da sala de aula. A palavra refugiado leva a uma interpretao errada, como se as pessoas fossem fugitivas, enquanto na verdade so vtimas de uma situao de conflito que precisam do apoio internacional, diz Ramirez, do Acnur. Formado mdico, Wakil montou uma clnica, o que lhe proporcionou uma situao financeira muito confortvel. Um dia, porm, recebeu uma correspondncia com o smbolo da Sepah Pasdaran, a Guarda Revolucionria do Ir, proibindo que ele continuasse a trabalhar no pas. Era incio de 2010 e eles seguiram para Istambul, maior cidade da Turquia. Foram dois anos sem emprego. A ltima decepo chegou com uma carta das Naes Unidas rejeitando o pedido de refgio nos Estados Unidos. O visto de permanncia temporria para estrangeiros venceria e Wakil tinha 15 dias para deixar o pas.

Em suas noites de insnia, Wakil conheceu pelas redes sociais a brasileira Rita Moura. Sensibilizada com o drama do mdico, ela sugeriu que ele tentasse pedir asilo ao consulado do Brasil. Com o pedido aprovado, o afego juntou as ltimas economias e comprou passagens para o Pas. De acordo com o Comit Nacional para os Refugiados, do Ministrio da Justia, o nmero de refugiados no Brasil triplicou no ltimo ano. A coordenadora do Centro de Acolhida para Refugiados da Critas de So Paulo, Maria Cristina Morelli, explica que os estrangeiros enfrentam diversas dificuldades quando chegam ao Pas. O primeiro obstculo  o acesso  moradia, depois, aos servios, j que a maioria no consegue falar portugus, diz.

Apesar de ter completado um ano no Brasil em janeiro, o mdico ainda no tirou o avental nem o estetoscpio das malas. Em agosto do ano passado, fez o exame para revalidar o diploma de medicina, mas no foi aprovado. Segundo o Ministrio da Sade, ele s poderia integrar o programa Mais Mdicos, caso o Ir possusse mais profissionais por mil habitantes do que o Brasil, um dos critrios exigidos pelo edital. Enquanto economiza dinheiro para pagar o Revalida, Wakil segue firme com seu objetivo. Quero voltar a trabalhar para dar um futuro digno para Yezdan, diz. Posso usar meu potencial para confeccionar seis mil calas por ms ou atender seis mil pessoas que precisam da minha ajuda. Vontade no lhe falta.

